Autor Tópico: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.  (Lido 1019 vezes)

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feliphex

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Re: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.
« Responder #20 em: Terça, 04 de Junho, 2019 - 17h43 »
Muito obrigado pela colaboração 08061975, quando te pedi para fazer isso eu tinha 100% de certeza que você era a pessoa certa.

Selecionei algumas coisas que escreveu que respondem diretamente várias desconfianças que já expus aqui no tópico, em geral tudo que escreveu deveria ser colocado oficialmente como fonte de pesquisa histórica para as futuras gerações, pois é algo bem embasado.

"Temos um regime republicano que, em 1914, ainda não tinha feito 3 anos, não era reconhecido pelos outros países, ainda não estava no "concerto das nações", como se dizia à época. De lembrar que, dos países que contavam na altura para alguma coisa, só EUA, França e Brasil eram repúblicas ..."

Isso para mim é algo que deve ter inflamado muito o povo português, saindo de uma monarquia que explorou o Brasil e as outras colônias e que com certeza não transferiu riquezas para um país com menos pobreza, como é citado por vocês.

"Um povo extremamente católico, dominado pelo Sr. Padre, integrado numa tropa dum regime extremamente anti-igreja católica, que era considerada como um dos fatores do atraso de Portugal face às outras nações europeias.

Eu já li um livro (O Holocausto do Vaticano/1986; Avro Manhattan) sobre o apoio do Papa ao regime nazista na 2ª Guerra Mundial e diretamente ao massacre ocorrido na Croácia, devem ter feito algo na 1ª Guerra também.

"Os ingleses, porque viram a falta de qualidade da preparação portuguesa, deixaram de fornecer os barcos de transporte, e, entretanto, o governo português entusiasta da participação na guerra europeia foi deposto em Dezembro de 2017 por um golpe militar liderado pelo Major Sidónio Pais, apoiante da causa alemã, antigo embaixador de Portugal em Berlim, e nada apoiante da guerra contra os alemães. "

Nunca imaginei que Sidónio Pais era apoiante da causa alemã, isso está virando um belíssimo enredo de um ótimo filme então, com grandes reviravoltas.

Muito obrigado.  :good:
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08061975

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Re: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.
« Responder #21 em: Quinta, 06 de Junho, 2019 - 13h10 »
feliphex, só em relação à 1ª citação que fizeste da minha resposta anterior neste fórum:

Com a frase que citaste, quero dizer claramente que o regime republicano português não era completamente aceite no resto da Europa, sabia disso, e procurava mudar isso "mostrando" o seu valor.

A população em geral, nunca foi muito entusiasta de ir para a guerra, conforme chegaram a ser, no início da guerra, as opiniões públicas do Reino Unido, França, Alemanha, etc ..., quando se dizia que a guerra ia terminar antes do Natal de 2014.
Mas o que inflamou mesmo a população, contra a guerra, foi o aumento do que se chamava, na altura, a "carestia de vida", ou seja, um tremendo aumento dos preços dos produtos. Muitos deles eram importados dos países que estavam agora em guerra, e vinham por um mar que estava infestado de submarinos alemães apostados em afundar todos os barcos que não os deles. Mas também os que eram feios cá registavam problemas. Um caso desses era o fabrico de pão nas cidades. Eram imensas as acusações e açambarcamento,e especialmente com os padeiros. E muita coisa era vendida, em Lisboa e no Porto, em mercado negro, a preços proibitivos, em vez de ser vendido no mercado oficial. Daí os imensos assaltos populares às lojas de comerciantes. Para além disso, claro está, temos o facto de não poderem contar com os jovens que estavam mobilizados, jovens na flor da idade, que fizeram falta nos campos e nas (poucas) fábricas. Também nunca compreenderam a razão de ser da intervenção na Europa, menos mal a intervenção em África.

Em relação ao aproveitamento das colónias (de lembrar que, na altura em que deflagou a guerra, o Brasil tinha cerca de 92 anos de independência, e 25 anos de regime republicano, pelo que, com licença, não considerarei o Brasil aqui), só depois, com o Estado Novo de Salazar, é que começaram a ir colonos para as colónias africanas e de Timor. Antes, a colonização era exclusivamente feita por degredados, presos que eram expulsos de Portugal Continental para lá. Mesmo no regime salazarista, a grande maioria dos lucros dessa exploração era para alguns poucos privilegiados, primeiro, as famílias nobres, e depois, para as famílias burguesas, que hoje a gente vê implicada em escândalos financeiros. Sendo que, como esta "elite" era parola, dizia que o que vinha de fora era melhor que o nacional, só compravam produtos de fora, logo a grande maioria desse dinheiro acabou por ir para esses países, como França, e especialmente, Reino Unido. Um pouco cá ficou, e é o que se vêm em Mafra, na Biblioteca Joanina de Coimbra, e em algumas igrejas.

FragaCampos

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Re: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.
« Responder #22 em: Quinta, 06 de Junho, 2019 - 15h33 »
Há um outro elemento a considerar quando se diz que os Portugueses não queriam a guerra.
Como referido pelo 08061975, a república era jovem, e a aprovação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, publicada em 20 de abril de 1911, criou anticorpos num país profundamente católico e historicamente ligado à Igreja.
Um dos motivos para a cisão entre os maçónicos que consumaram o fim da monarquia foi precisamente as diferenças de opinião relativamente a este tema. O povo, que vivia abandonado e na miséria, mais abandonado ficou.
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feliphex

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Re: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.
« Responder #23 em: Quinta, 06 de Junho, 2019 - 17h09 »
Rapaz, estou achando que se cavarmos mais e mais chegaremos nos milagres de Fátima ... e nesse momento sim, teremos vaga no History/História ...  :good:
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Re: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.
« Responder #24 em: Quinta, 06 de Junho, 2019 - 17h36 »
O Papa da época, Bento XV, possui uma estátua em Istambul, Turquia (país muçulmano, na época "Império Otomano", aliado da Alemanha), por motivo de supostamente ter intercedido bastante durante e no fim da guerra pela Turquia.



Fonte da imagem: wikipedia

Descrição da imagem na wikipedia:
Estátua do Papa Bento XV no pátio da Catedral do Espírito Santo, Istambul. Foi erguido pelo país muçulmano da Turquia para comemorar a solicitude de Bento em relação ao seu povo durante a Primeira Guerra Mundial. O documento em sua mão esquerda é uma lista de nomes que na angústia deles, reivindicavam a paternidade universal do Papa. Bento XVI estabeleceu o escritório para prisioneiros de guerra, um apostolado de caridade para colocar os prisioneiros em comunicação com seus entes queridos, numa época em que não havia outra organização internacional que pudesse penetrar nas cortinas da hostilidade. A estátua foi feita pelo escultor italiano Enrico Quattrini. A inscrição diz:
"Para o Grande Papa da Hora Trágica do Mundo
Bento XV
Benfeitor do Povo
Sem Discriminação de Nacionalidade ou Religião
Um Sinal de Gratidão do Oriente"
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08061975

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Re: Portugal na 1ª guerra mundial, mistério ou loucura minha.
« Responder #25 em: Sábado, 08 de Junho, 2019 - 00h37 »
A influência da Igreja Católica era enorme, especialmente nos meios pequenos. Pode-se sentir em 2 exemplos:

1º) No tempo da Monarquia, não havia Registo Civil. Quem registava os nascimentos, os casamentos e as mortes eram os padres católicos.

O Estado Monárquico, em algumas alturas, deu mostras de querer tirar isso da Igreja Católica, mas essa agarrou-se ferozmente a isso. Na maior parte do tempo, nem quis saber ...

Uma das primeiras medidas tomadas pelos Republicanos foi a instauração do Registo Civil, logo em 1911. Mas, para isso ficar minimamente completo, teriam os padres de ceder cópia dos seus livros de baptismo, pois o registo dos mortos os republicanos conseguiram fazer deitando mão aos registos das Juntas de Paróquia, as antecessoras das actuais Juntas de Freguesia (onde, como o nome indica, o Sr. Padre tinha muita influência no tempo da Monarquia). Mas os padres sempre resistiram a isso; mesmo já depois da 1ª Guerra Mundial, com quase 10 anos de Primeira República, ainda tínhamos bastantes episódios da Polícia cercar o templo para que o Padre entregasse o livro de baptismo.

Em termos de casamentos, essa influência perdurou imenso no tempo. Com a instauração do Registo Civil, o Estado passou a poder realizar casamentos, os chamados "casamentos civis", mas nunca teve força para deixar de reconhecer oficialmente os casamentos feitos na Igreja Católica. Só nos anos 80 é que os casamentos civis passaram a ser encarados pela população como mais importantes que os casamentos pela igreja, muito devido à posição retrógrada da Igreja Católica sobre o divórcio.

2º) Outro caso exemplar da enorme influência da Igreja Católica na sociedade portuguesa na altura da 1ª Guerra Mundial percebe-se no facto que os soldados exigiram dos seus comandantes a presença de padres católicos portugueses junto a eles nas trincheiras, senão não combatiam. E o Exército não teve outro remédio em mandar seguir os padres católicos. É que, no início da intervenção, as chefias militares invocavam que Portugal era um Estado Laico, pelo que não tinham de estar a manter padres católicos, pois era uma desigualdade face a anglicanos e a judeus, especialmente (as 2 únicas religiões que se professavam em Portugal na altura, para além do Catolicismo, claro está).
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