Autor Tópico: Em Nome da Razão (1979)  (Lido 2553 vezes)

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shig

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Em Nome da Razão (1979)
« em: Terça, 17 de Setembro, 2013 - 21h03 »
Em Nome da Razão


[imdb]

Citação
Documentário “Em Nome da Razão – um Filme sobre os porões da loucura”  - quase todo filmado no manicômio de Barbacena, Minas Gerais. A câmera penetra em todos os ambientes do hospital – pavilhões de velhos, aleijados, crianças, homens e mulheres. As sequências são interligadas pela imagem de um longo e escuro corredor do hospício e uma ‘louca’ que canta uma música. Texto narrado em off propõe uma reflexão sobre a função social do manicômio a quem servem os hospitais psiquiátricos, quem são as pessoas enviadas para lá, qual o processo de ‘cura’ e recuperação a que são submetidos. O filme encerra com depoimentos da família de um paciente.

http://youtu.be/R7IFKjl23LU
« Última modificação: Terça, 17 de Setembro, 2013 - 21h05 por shig »

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Re: Em Nome da Razão (1979)
« Resposta #1 em: Terça, 17 de Setembro, 2013 - 21h21 »
Prefácio do livro de Daniela Arbex - Holocausto Brasileiro - que trata do mesmo assunto abordado no vídeo:

"O repórter  luta  contra  o  esquecimento.   Transforma  em  palavra  o  que  era  silêncio.   Faz memória.   Neste  livro,   Daniela  Arbex  devolve  nome,   história  e  identidade  àqueles  que,   até então,   eram  registrados  como  “Ignorados  de  tal ”.   Eram  um  não  ser.   Pela  narrativa,   eles retornam,   como  Maria  de  Jesus,   internada  porque  se  sentia  triste,   Antônio  da  Silva,   porque era  epilético.   Ou  ainda  Antônio  Gomes  da  Silva,   sem  diagnóstico,   que  ficou  vinte  e  um  dos trinta  e  quatro  anos  de  internação  mudo  porque  ninguém  se  lembrou  de  perguntar  se  ele falava.   São  sobreviventes  de  um  holocausto  que  atravessou  a  maior  parte  do  século  XX, vivido  no  Colônia,   como  é  chamado  o  maior  hospício  do  Brasil ,   na  cidade  mineira de Barbacena.   Como  pessoas,   não  mais  como  corpos  sem  palavras,   eles,   que  foram  chamados de  “doidos”,  denunciam a  loucura dos  “normais”.
As  palavras  sofrem  com  a  banalização.   Quando  abusadas  pelo  nosso  despudor,   são roubadas  de  sentido.   Holocausto  é  uma  palavra  assim.   Em  geral ,   soa  como  exagero  quando aplicada  a  algo  além  do  assassinato  em  massa  dos  judeus  pelos  nazistas  na  Segunda Guerra.   Neste  livro,   porém,   seu  uso  é  preciso.   Terrivelmente  preciso. Pelo  menos 60 mil pessoas  morreram  entre  os  muros  do  Colônia.  Tinham  sido,   a  maioria,   enfiadas  nos  vagões de  um  trem,   internadas  à  força.   Quando  elas  chegaram  ao  Colônia,   suas  cabeças  foram raspadas,   e  as  roupas,   arrancadas.   Perderam  o  nome,   foram  rebatizadas  pelos  funcionários, começaram e  terminaram ali.
Cerca  de  70%  não  tinham  diagnóstico  de  doença  mental .   Eram  epiléticos,   alcoolistas, homossexuais, prostitutas,   gente  que  se  rebelava,   gente  que  se  tornara  incômoda  para alguém  com  mais  poder.   Eram  meninas  grávidas,   violentadas  por  seus  patrões,   eram esposas  confinadas  para  que  o  marido  pudesse  morar  com  a  amante,   eram  filhas  de fazendeiros  as  quais  perderam  a  virgindade  antes  do  casamento.   Eram  homens  e  mulheres que  haviam  extraviado  seus  documentos.   Alguns  eram  apenas  tímidos.   Pelo  menos  trinta  e três eram  crianças.
Homens,   mulheres  e  crianças,   às  vezes,   comiam  ratos,   bebiam  esgoto  ou  urina, dormiam  sobre  capim,   eram  espancados  e  violados.   Nas  noites  geladas  da  serra  da Mantiqueira,   eram  atirados  ao  relento,   nus  ou  cobertos  apenas  por  trapos.   Instintivamente faziam  um  círculo  compacto,   alternando  os  que  ficavam  no  lado  de  fora  e  no  de  dentro,   na tentativa de  sobreviver.  Alguns não alcançavam as manhãs.
Os  pacientes  do  Colônia  morriam  de  frio, de fome, de  doença.   Morriam  também  de choque.   Em  alguns  dias,   os  eletrochoques  eram  tantos  e  tão  fortes,   que  a  sobrecarga derrubava  a  rede  do  município.   Nos  períodos  de  maior  lotação,   dezesseis  pessoas  morriam  a cada  dia.   Morriam  de  tudo  —  e  também  de  invisibilidade.   Ao  morrer,   davam  lucro.   Entre  1969 e  1980,   1.853  corpos  de  pacientes  do  manicômio  foram  vendidos  para  dezessete  faculdades de  medicina  do  país,   sem  que  ninguém  questionasse.   Quando  houve  excesso  de  cadáveres e  o  mercado  encolheu,   os  corpos  foram  decompostos  em  ácido,   no  pátio  do  Colônia,   na frente  dos  pacientes,   para  que  as  ossadas  pudessem  ser  comercializadas.   Nada  se  perdia, exceto a  vida.
Pelo  menos  trinta  bebês  foram  roubados  de  suas  mães.   As  pacientes  conseguiam proteger  sua  gravidez  passando  fezes  sobre  a  barriga  para  não  serem  tocadas.   Mas,   logo depois  do  parto,   os  bebês  eram  tirados  de  seus  braços  e  doados.   Este  foi   o  destino  de Débora  Aparecida  Soares,   nascida  em  23  de  agosto  de  1984.   Dez  dias  depois,   foi   adotada por  uma  funcionária  do  hospício.   A  cada  aniversário,   sua  mãe,   Sueli   Aparecida  Resende, epilética,   perguntava  a  médicos  e  funcionários  pela  menina.   E  repetia:   “Uma  mãe  nunca  se esquece  da  filha”.   Só  muito  mais  tarde,   depois  de  adulta,   Débora  descobriria  sua  origem.   Ao empreender  uma  jornada  em  busca  da  mãe,   alcançou  a  insanidade  da  engrenagem  que destruiu  suas  vidas.
Esta  é  a  história  que  Daniela  Arbex  desvela,   documenta  e  transforma  em  memória, neste  livro-reportagem  fundamental .   Ao  expor  a  anatomia  do  sistema,   a  repórter  ilumina  um genocídio  cometido,  sistematicamente,   pelo  Estado  brasileiro,   com  a  conivência  de  médicos, de  funcionários e  também da  sociedade.
É  preciso  perceber  que  nenhuma  violação  dos  direitos  humanos  mais  básicos  se sustenta  por  tanto  tempo  sem  a  nossa  omissão,   menos  ainda  uma  bárbara  como  esta.   Em 1979,   o  psiquiatra  italiano  Franco  Basaglia,   pioneiro  da  luta  pelo  fim  dos  manicômios,   esteve no  Brasil   e  conheceu  o  Colônia.   Em  seguida,   chamou  uma  coletiva  de  imprensa,   na  qual afirmou:   “Estive  hoje  num  campo  de  concentração  nazista.   Em  lugar  nenhum  do  mundo, presenciei  uma  tragédia  como esta”.
Quando  começou  a  apurar  a  série  de  reportagens  que  marcariam  o  nascimento  deste livro,   Daniela  descobriu-se  diante  de  um  impasse.   Seu  filho,   Diego,   tinha  apenas  quatro meses  de  vida.   Ela  tinha  acabado  de  virar  mãe,   ainda  amamentava  e  colocava-se,  por vontade  própria, no  parapeito  do  horror.   A  repórter  sabia  que  mergulharia  no  inferno  —  e,   de novo,   aqui   o  inferno  não  é  uma  hipérbole.   Sabia  também  que,   no  inferno,   não  há  fim  de expediente.   Um  repórter,   quando  faz  bem  o  seu  trabalho,   é  assinalado  pelo  que  vive.   A  dor só  vira  palavra  escrita  depois  de  respirar  dentro  de  cada  um  como  pesadelo.   Como  repórter experiente,   que,   pela  qualidade  de  suas  matérias,   ganhou  os  principais  prêmios  nacionais  e internacionais  de  jornalismo,   Daniela  sabia  o  que  se  estendia  diante  dela.   E,   mesmo  assim, fez a  sua escolha.  E o  filho? Diego  se orgulharia dela.
Depois  da  série  de  reportagens  publicada  na  Tribuna  de  Minas,   de  Juiz  de  Fora,   Daniela seguiu  investigando.   Viajava  noventa  e  cinco  quilômetros  até  Barbacena,   todas  as  manhãs,   e voltava  à  tarde,   já  exausta  pelo  que  viu  e  ouviu,   para  iniciar  a  rotina  no  jornal .   Entrevistou mais  de  cem  pessoas,   parte  delas  nunca  tinha  contado  a  sua  história.   Além  de  sobreviventes do  holocausto,   Daniela  escutou  o  testemunho  de  funcionários  e  de  médicos.   Um  deles, Ronaldo  Simões  Coelho,   ligou  para  ela  meses  atrás:   “Meu  tempo  de  validade  está  acabando.
Não  quero  morrer  sem  ler  seu  livro”.   No  final   dos  anos  70,   o  psiquiatra  havia  denunciado  o Colônia  e  reivindicado  sua  extinção:   “O  que  acontece  no  Colônia  é  a  desumanidade,   a crueldade  planejada.   No  hospício,   tira-se  o  caráter  humano  de  uma  pessoa,   e  ela  deixa  de ser gente.  É permitido andar nu e  comer bosta,  mas é proibido o protesto qualquer que  seja a sua  forma”.  Perdeu o emprego.
Umas  poucas  vezes,   os  esqueletos  do Colônia  subiram  à  superfície.   Passada  a  comoção pública,   voltavam  ao  fundo  empurrados  pelas  pedras  de  sempre.   Em  1961,   a  rotina  do hospício  foi   contada  na  revista  O  Cruzeiro,   pelo  fotógrafo  Luiz  Alfredo  e  pelo  repórter  José Franco.   O  título  da  matéria  era:   “A  sucursal   do  inferno”.   Em  1979,   o  repórter  Hiram  Firmino  e a  fotógrafa  Jane  Faria  publicaram  a  reportagem  “Os  porões  da  loucura”,   no  Estado  de  Minas.
O  documentário  Em  nome  da  razão,   de  Helvécio  Ratton,   filmado  em  1979,   tornou-se  um símbolo da  luta antimanicomial .
No  início  dos  anos  60,   ao  voltar  para  a  redação  de  O  Cruzeiro  depois  de  conhecer  a Colônia,   o  fotógrafo  Luiz  Alfredo  desabafou  com  o  chefe:   “Aquilo  não  é  um  acidente,   mas  um assassinato  em  massa”.   Apesar  da  denúncia  estampada  na  revista  de  maior  sucesso  da época,   a  real idade  só  começaria  a  mudar  –  lentamente  –  duas  décadas  mais  tarde,   a  partir dos  anos  80,   quando  a  reforma  psiquiátrica  ganhou  força.   Hoje,   restam  menos  de  200 sobreviventes.   Parte  deles  morrerá  internada,   parte  tenta  inventar  um  cotidiano  em residências  terapêuticas,   com  os  farrapos  de  delicadeza  que  lhe  sobram.   Como  Sônia  Maria da Costa,  que às  vezes  coloca dois  vestidos porque passou a  vida nua.
Neste  livro,   Daniela  Arbex  salvou  do  esquecimento  um  capítulo  da  história  do  Brasil .
Agora,   é  preciso  lembrar.   Porque  a  história  não  pode  ser  esquecida.   Porque  o  holocausto ainda não acabou."

Eliane Brum

São Paulo,  5 de  fevereiro de 2013"
« Última modificação: Sexta, 20 de Setembro, 2013 - 02h06 por ibbins »

FragaCampos

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Re: Em Nome da Razão (1979)
« Resposta #2 em: Sexta, 20 de Setembro, 2013 - 01h24 »
Obrigado pela partilha, shig. Do documentário e do texto.

O inferno, não me canso de o dizer, é na Terra. E não pertence ao passado. Não aconteceu lá longe nem há muito tempo. O ser humano é capaz do melhor e do pior. Ou do humanamente inimaginável. Do profundamente obscuro e totalmente desprovido de razão. Da ignorância animalesca ou rasgo genial e luminoso.
É algo que se repetiu, que se repete e que se repetirá enquanto formos humanos e enquanto a memória continuar a desvanecer-se no tempo como brisa em tarde de verão.
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shig

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Re: Em Nome da Razão (1979)
« Resposta #3 em: Domingo, 22 de Setembro, 2013 - 17h11 »
Concordo plenamente contigo. Vivemos no inferno e ainda não percebemos.
Esse verdadeiro holocausto, mesmo aqui no Brasil pouca gente conhece essa história. Uma vergonha nacional que muitos preferem nem tomar conhecimento.
Como diz no prefácio do livro de Daniela Arbex, "...a história não pode ser esquecida".

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